terça-feira, 1 de maio de 2012

Ah!, se Eu lá Estivesse com os Meus Francos!


Soa-te familiar esta frase? Nunca te veio à cabeça, quando ouvias o relato de algum acontecimento violento, ou da morte de alguém inocente, um pensamento parecido a este? Pois a mim já, e costuma ser mais ou menos deste género: “ah! Se eu lá estivesse para fazer os meus golpes de taekwondo, aí é que era bonito!” (PS 1 – não sei assim tanto de taekwondo; PS 2 – nestes pensamentos nunca sou o tipo que se afasta e fica a ver as coisas acontecer).

Mas a que propósito é que escolhi este título para o post? E por que razão teria a meio do texto uma fotografia artisticamente tirada do livro A História de Cristo, de Giovanni Papini? Muito simples. Lá para o final deste magnífico livro, que li e recomendo a qualquer pessoa, o autor conta-nos um episódio bastante engraçado: “Liam a Clodoveu a história da Paixão, e o cruel rei, que suspirava e chorava, de repente, não podendo conter-se mais, pondo a mão no punho da espada, gritou: ah!, se eu lá estivesse com os meus Francos!”. 


Este excerto do livro deu-me uma enorme vontade de rir por duas razões:

– Esta é a forma como reajo tantas vezes que me indigno com qualquer coisa.
- Este tipo de reacções não vale nada.

Acho que é mesmo humano este sentimento de que se nós “lá” tivéssemos estado, tudo teria sido diferente. O Bem triunfaria sobre o Mal, nunca teríamos permitido que a pessoa x fosse tão gozada e, no caso específico da paixão de Cristo, jamais teríamos assistido impávidos e serenos a todo o escárnio a que Jesus foi sujeito. Mas será que sim? Será que, caso tivéssemos oportunidade disso, teríamos a coragem de nos opor ao que sabíamos estar errado? A meu ver, isto implica duas coisas a) não deixar que aquilo que as outras pessoas pensam sobre mim condicione o meu comportamento e b) estar pronto para a reacção daquele que está a magoar, física ou psicologicamente, alguém ao nosso lado. Acho que para obtermos a resposta à pergunta anterior, basta pensar naquilo que fazemos nos dias de hoje, e não no que teríamos feito se tivesse sido ontem.

Ao mencionar a reacção do agressor, chego a um outro ponto de que queria falar neste post: a violência. Pode acontecer que ele decida partir para a violência, e nessa ocasião tens novamente duas opções: ou decides responder com igual ou pior agressão, ou preferes não o fazer. E agora pergunto-te, onde está a coragem daquele que responde às asneiras com insultos, ou a um soco com um pontapé bem dado? A mim cheira-me que isso é alinhar na dinâmica. Por mais absurdo que pareça, a via que Jesus nos apontou, a de darmos a cara a seguir à primeira bofetada, é a única que nos vai deixar felizes. Quanto a quem nos chateou? Bem, ele ficará no mínimo confuso com a nossa reacção. “Então mas eu agora estava aqui cheio de pica para uma lutinha, e este tipo mostra-me a outra bochecha?” Querem humilhação melhor que esta?

 A violência quase nunca é solução, e quando não é solução só pode ser parvoíce. Citando Giovanni Papini neste livro: “Todo o homem tem um obscuro respeito pela coragem dos outros, especialmente quando essa coragem é moral, ou seja da mais rara e difícil espécie.”


Nota final para aqueles que não se vêem diariamente envolvidos em situações 
de pancada (também pertenço a este grupo)
Há muitas injustiças a acontecer à nossa volta, e uma palavra dita com má intenção pode magoar bem mais que qualquer ato físico. Se tentarmos impedir que tal aconteça, de certeza que alguém ficará agradecido.

17 comentários:

  1. gostei de ler o post, especialmente a tua nota final. é verdade que muitas vezes uma palavra é igual ou bem pior que um pontapé...
    beijinho miguel, continua com isto que está bom! :) *

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  2. pensamento Ultra bandeira, assim sim!

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    1. sabes bem costa, pensamento de leão é assim :)

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  3. Olá Miguel!

    Para começar, gosto da maneira como expões o assunto: directamente, sem rodeios.

    Agora vou dar uma de geek-fã-do-harry-potter e fazer duas citações do Dumbledore, das mais variadissimas conversas que ele teve com o Harry, e que resumem todo o teu post:

    "A tua mãe morreu para te salvar. E se há alguma coisa que o Voldemort não compreende, é o amor" Pois, foi precisamente isto que Jesus fez por nós ao morrer naquela cruz, ao não ser fanfarrão e redimir-se como ser Humano.
    Entra automaticamente aqui a outra citação que queria fazer, "são as nossas escolhas que mostram quem realmente somos, muito mais do que as nossas capacidades". Na vida temos de saber fazer as escolhas da maneira mais acertada, tal como dizes, "não deixar que aquilo que as outras pessoas pensam sobre mim condicione o meu comportamento".

    Fico à espera de mais posts!

    Beijinhos, Pakika

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    1. Pakika,

      obrigado pela tua opinião.
      Quanto às deixas do Dumbledore, eu realmente achava que ele se saía com uma bem sábia de vez em quando. Fizeste um bom apanhado :)
      E concordo plenamente com a segunda. Se formos a ver bem, a história da nossa vida é escrita à custa de inúmeras decisões que vamos tomando todos os dias.

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  4. Miguel,
    Primeiro de tudo, o teu texto faz-me lembrar imediatamente o tema do nosso trabalho de história, sobre os campos de concentração da União Soviética e da Alemanha. Indigna-me saber que o ser humano chegou a esse ponto e que nós não podemos fazer nada para alterar isso. Eu não me atrevo a dizer que daria uns golpes de taekwondo porque cairia logo com um toque num dos cabelos! Mas haveria quem o fizesse, estou confiante!

    Para mim o mais marcante é o exemplo de Jesus; realmente a humildade é um dom difícil de se alcançar. Quantas vezes conseguimos ficar calados e não ripostar quando nos ofendem e magoam, quando, no fundo, merecíamos reconhecimento? Só mesmo com a confiança posta em Deus é que conseguimos dar o outro lado da face e, como disseste e bem, o outro "ficará no mínimo confuso com a nossa reacção".

    Gosto da ideia do blog e vou continuar a seguir, claro!

    Beijinhos,
    Marta

    PS - Este blog é a prova de que os homens e mulheres de números também conseguem observar e escrever coisas interessantes ahah!

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    1. Marta,
      tem piada que também eu relaciono imenso este tema aos campos de concentração Nazi. No outro dia vi a lista de Schindler, que retrata de forma bastante detalhada os horrores que os Judeus sofreram, e só me vinha a cabeça esse pensamento que referiste: Como é que é possível, que há tão pouco pouco tempo, tenha havido alguém capaz de tal atrocidade? É difícil encontrar explicação para isso, mesmo para a Igreja o Mal em si mesmo tem um qb de mistério.

      Eles é que não sabem Marta, mas nós apesar de darmos a cara por homens e mulheres de números, temos muito mais que se nos diga :)

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  5. Caro Miguel,

    Passo apenas para te dar os Parabéns pelo blog e desejar os maiores sucessos (que, tenho a certeza, são certos)! E, claro, opinar um pouco sobre o tema da violência, de que falas.

    O exemplo de Jesus é, como já foi várias vezes dito, marcante: Ele é o Cordeiro levado ao matadouro, maltratado e que tudo sofreu no Seu silêncio. Dói imaginar a Santa Face do Senhor transfigurada de agonia e dor, e mais ainda como estariam revoltados alguns daqueles que assistiram ao Calvário. Pensemos em Nossa Senhora, a "Mater dolorosa juxta Crucem lacrimosa dum pendebat Filius", e na pergunta que nos é feita: "Qual o homem que não chora ao ver a Mãe de Cristo em tal suplício?".

    Ao mesmo tempo, é inevitável lembrar-me que Nosso Senhor não era nenhum pacifista! Lemos nos Evangelhos que Jesus, «fazendo um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas dos cambistas pelo chão e derrubou-lhes as mesas» (Jo 2, 13-18).

    Deixo o repto!

    Um grande abraço,

    Diogo

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    1. Diogo,

      em primeiro lugar muito obrigado pela tua enriquecedora partilha.
      Penso que tens razão quando dizes que Jesus não era pacifista nenhum, no sentido em que o Seu objectivo não era o de acabar com toda a guerra no mundo. Citando o evangelho de S.Mateus(10, 34), "Não julgueis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada". Mas para compreendermos o verdadeiro sentido destas palavras, temos de ler o que vem a seguir, onde, entre outras coisas, Jesus diz "Quem não toma a sua cruz e Me segue, não é digno de Mim". Aqui ficamos a perceber que a espada a que Cristo se refere não é a de metal que trespassa corpos e tira a vida aos homens, mas antes a que cria a guerra interior, uma batalha de cada um consigo próprio e com os valores que vive.

      No entanto Diogo, e agora deixo a minha resposta directa à questão que levantaste, também não acho que a atitude de dar a face a seguir à primeira investida seja um acto de alguém morno, tomado de ânimo leve (fiquei com a ideia de que poderias pensar isto). Não é apenas por ideais pacifistas que uma pessoa escolhe deliberadamente fazê-lo. Na minha opinião, Jesus, ao aconselhar às pessoas que o façam, não está a dizer-lhes que sejam pacifistas e que deixem os maus da fita fazer o que quiserem. Não, está é a passar a mensagem de que é possível ter garra sem responder na mesma moeda, mostrar uma coragem muito mais verdadeira do que aquela que a outra pessoa aparentou mostrar.

      Grande abraço

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    2. hehe Bom ponto de vista!

      De facto Nosso Senhor não quer mesmo que sejamos uns totozinhos.
      Ele "está é a passar a mensagem de que é possível ter garra sem responder na mesma moeda". Boa!

      Faz-me lembrar os debates sobre temas polémicos que às vezes exaltam tanta gente e que, ao saber responder com serenidade, ou mesmo ao saber calar, acabamos por "ganhar" com a garra de que falas e com humildade. Já estou farto das discussões sem fim...!

      Abraço e parabéns pelo blog!

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  6. Concordo que o princípio de dar a outra face é a melhor resposta. Mas convém referir que essa não é uma máxima nova. Seis séculos antes de Jesus Cristo já, por exemplo, Lao Tsé (filósofo e fundador do movimento taoísta) a tinha usado. Recorde-se também Sócrates e as suas palavras na hora da morte. Ainda assim, a grande questão é saber quantos de nós se submetem a esse preceito.

    Quanto à nota final talvez me reveja um pouco nisso.

    Um abraço

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    1. Sr. Vedalkeano,

      fica desde já a minha admiração pelo teu espírito crítico que, neste caso, foi bastante apurado. Passo a explicar:

      Como dizes, e muito bem, Lao Tse disse às pessoas "Paga as ofensas com a delicadeza", e Sócrates defendia que "Não se deve retribuir a ninguém injustiça por injustiça, mal por mil, seja qual for a ofensa que se tenha recebido."

      Relativamente às palavras de Lao Tse, Giovanni Papini refere-se a elas como uma sugestão tímida. "Mas a amabilidade é prudência e doçura, não é amor." - diz o autor.
      Quanto a Sócrates, passo a citar Papini: "Mas o que domina no espírito de Sócrates é o pensamento da justiça e não o sentimento do amor. Em nenhum caso o justo deve fazer mal; por respeito de si mesmo, note-se, e não por afeição para com o inimigo. (...)"

      E aqui está uma das diferenças entre aquilo que Jesus pregou e as duas correntes de pensamento que referiste. Na essência daquilo que Lao Tse e Sócrates proferiram estão sentimentos humanos, está o desejo de justiça. E aquilo que Jesus diz baseia-se num sentimento bem mais divino, o amor pelo próximo.

      Fico à espera de resposta,
      um abraço.

      PS: o nickname não se ajusta de todo à seriedade dos teus comentários

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  7. Miguel

    É sem dúvida uma delicia ler o que escreveste pois transmite muito do que Jesus ensinou sobre como amar o próximo. Mas está também subjacente na tua abordagem termos uma vida que reflita o exemplo de Jesus, o que nos leva em cada dia a reflectir sobre a nossa postura e comportamentos.
    É bom haver gente a escrever e a pensar assim...certamente farão um mundo melhor!

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    1. Muito obrigado comentador anónimo,
      espero bem que sim :)

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  8. Oi migueu! Sou eu novamente cara!

    Eu tenho um primo (Washigton) que era um "encrenqueiro" e às vezes não dá para dar a face assim... É necessário pulso firme... Volto a frisar, falta-lhe "Estofo" miguel, mas você é bem-intencionado... Mas assim não chega longe não... Vai acabar por trabalhar para um tal de Lourenço...

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