quarta-feira, 16 de maio de 2012

I - As Gerações Roubadas e a nobreza de quem pede desculpa


Todos nós, em inúmeras ocasiões das nossas vidas, nos vemos obrigados a pedir desculpa a alguém. Seja em casa ou na escola com pessoas que conhecemos, seja em plena rua junto de desconhecidos, há situações que pedem as nossas desculpas. Porque pedir desculpa é reconhecer, perante mim e a outra pessoa, que não sou perfeito e me arrependo daquilo que fiz; é mostrar a quem magoámos que nos preocupamos com ela.

“Mas desde quando é que pedir desculpa muda alguma coisa?! Se está feito, está feito!”

Pois, interlocutor imaginário, tens razão num aspeto mas falhas redondamente noutro. Pedir desculpas não muda o passado, é verdade, mas pode mudar o futuro. Pode até mudar o mundo, pensa Chris Abbott, opinião com a qual concordo plenamente. No seu livro “21 discursos que mudaram o mundo”, um dos discursos escolhidos para análise foi precisamente o de um pedido de desculpas, feito pelo ex-primeiro-ministro Australiano ao povo indígena do seu país, apenas há 4 anos, em 2008.

Fazendo uma brevíssima contextualização histórica, as Gerações Roubadas representam todas as crianças indígenas ou de ascendência mista, que foram retiradas às suas famílias na Austrália, entre meados do século XIX e a década de 1970. Com esta iniciativa, o Estado e os governos federais, sob a influência dos invasores Europeus, pretendiam que a cultura indígena fosse assimilada pela europeia.

 “E o que é que eu tenho a ver com esta história toda? Eu nunca tentei roubar uma geração!”

Acredito que nunca tenhas tentado fazê-lo, mas uma coisa é certa: já tiveste de pedir desculpa a alguém. E como, muito provavelmente, terás de fazê-lo novamente durante a tua vida, mais vale ver o que podemos aprender com este magnífico discurso e tentar construir o pedido de desculpas ideal (ideia utópica – mas vá, ficam aqui alguns pontos-chave que podem ajudar). As próximas passagens são citações feitas do discurso de Kevin Rudd, do qual fica uma pequena parte em baixo.



“É por isso que o Parlamento está hoje aqui reunido: para lidar com estes assuntos pendentes da nação, para remover uma grande mancha da alma da nação e, num espírito de reconciliação verdadeira, abrir um novo capítulo na história deste grande país, a Austrália.” 

1º passo – Reconhecer que foi feito algo de mau
Independentemente de termos agido mal ontem ou há um ano, temos de nos responsabilizar por aquilo que fizemos, reconhecer que há assuntos e pessoas que precisam de atenção agora.
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 “Nós, os parlamentos da nação, somos responsáveis, não aqueles que puseram as nossas leis em prática.”

2º passo (opcional) – Assumir responsabilidades pelos atos de outrém
Nem sempre somos nós os participantes diretos de uma ação que magoou alguém. Mesmo que isso aconteça, muitas vezes é a nós que cabe o papel de fazer o mea culpa. Pode ser complicado, mas é um ato nobre e próprio de quem está seguro de si próprio.
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“Esta não é, como alguns diriam, uma visão negativa da história; é apenas a verdade: a verdade fria e incómoda, tal como ela é – temos de encará-la, lidar com ela, e seguir em frente a partir daí.”

3º passo – Encarar a verdade
Até estarmos completamente conscientes de que um pedido de desculpas é realmente necessário, acontece tentarmos convencer-nos de que a pessoa ficará bem sem ele. Mas a verdade, fria e incómoda, é para se encarar de frente e com a consciência tranquila.
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“Às Gerações Roubadas, digo o seguinte: como primeiro-ministro da Austrália, peço desculpa.”

4º passo – Não percas o próximo post!!

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Caros leitores, para a próxima semana podem contar com os 4 passos finais do pedido de desculpas ideal, assim como uma breve dissertação minha sobre aqueles pedidos de desculpa que, na verdade não o são.

Entretanto, uma vez que ainda não estão munidos de toda a informação que possamos aproveitar do discurso de Kevin Rudd, sugiro que não façam nada de que tenham de se desculpar! A não ser que queiram ficar pelo 3º passo, claro, mas aí correriam o risco de a outra pessoa não vos levar muito a sério.

Já agora, alguém tem ideia de quais poderão ser os próximos passos? Quais é que completariam bem este guia, na vossa opinião?

Para verem o discurso completo de Kevin Rudd, pesquisem no youtube pelo mesmo. Está dividido em 3 partes, aqui está a primeira: http://www.youtube.com/watch?v=SUVnAp4lXfI



2 comentários:

  1. Há no Mundo tanto porque pedir desculpas.
    esse tanto resulta fundamentalmente da falta de respeito dos fortes para os mais fracos e da falta de solidariedade humana.
    A opressão, a guerra, a escravatura, a pena de morte, o lucro exorbitante da economia sem valores e respeito humano, etc. ,etc.....

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    1. Tio, tens toda a razão. O problema é que nem sempre há quem se responsabilize por essas coisas, e acabam por não se pedir muitas desculpas essenciais

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