quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Opinião (própria) de quem não quer perder tempo

Há quem não tenha pachorra para ouvir o prof. Marcelo Rebelo de Sousa falar na tvi, nem esteja muito interessado em ouvir conferências sobre as características do tecido empresarial em Portugal.

Há pessoas que não gostam de ler notícias e que jamais dedicariam parte do seu tempo a um livro sobre a atualidade. Basicamente, nem toda a gente gosta de ter trabalho para formar uma opinião sobre o que se passa no mundo. OK, no stress - há gostos para tudo e informar-se sobre os acontecimentos não tem de ser um deles. Mas então, o que será de esperar que o João (personagem genérica que nunca se interessou por pintura) diga à Maria (que adora pintura e sabe tudo o que há a saber sobre a matéria) quando ela lhe perguntar a sua opinião quanto ao quadro que os dois estão a ver? Um "gosto muito, mas não te sei dizer grande coisa sobre o assunto" ficava-lhe bem, dadas as circunstâncias. Mas não é que o João leu no dia anterior uma crítica precisamente àquele quadro, optando por fazer suas as palavras do autor? Chico-esperto... E com isto podemos chegar a uma conclusão:

Ter opinião sobre um tema qualquer não é como jogar futebol. No futebol, é impossível convencer um estádio inteiro de que somos bons jogadores, se não o formos! No mundo da opinião as coisas não funcionam bem assim. É possível uma pessoa mandar bitaites sobre um assunto qualquer sem saber muito bem do que está a falar, e ainda assim fazer-se passar por conhecedor da matéria. É uma técnica, é verdade, que muito poucos conseguem dominar. Queres saber como o fazem? Aqui ficam três práticas que me parece que se adequam bem aos mestres nesta arte:

  • Decorar as opiniões dos pros                                                                                                Como escrevi na semana passada, ouvir os verdadeiros entendedores de certa matéria pode ser uma maneira bastante boa de construirmos a nossa própria opinião. Com uma condição: pensarmos por nós próprios sobre aquilo que a outra pessoa disse e acrescentar-lhe o nosso toque pessoal - aquilo com que concordamos ou discordamos. Não aprendemos nada se ouvirmos alguém falar, com o único intuito de retirar do discurso dessa pessoa frases que possamos repetir. As araras fazem o mesmo!...

...e não são assim tão espertas

  • Ler SÓ os títulos das notícias                                                                                                   Esta técnica é particularmente eficaz quando se conversa com alguém que, assim que tem um tema para discutir, é capaz de fazer extensos monólogos. João: "Estive ontem a ler sobre a economia Grega [não passou do título] e descobri algns factos interessantes. Sabias que já tiveram de pedir ajuda financeira ao BCE?" Maria: "Pois é! Sabes porquê, não é? Era óbvio que com tanto tempo a fazer ..., só podiam ter acabado assim". Os problemas começam quando o João tem de aprofundar um bocadinho aquilo que "leu".
  • Ler a contracapa dos livros interessantes                                                                                   A mim sabe bem, e acho que esta é uma sensação comum entre quem gosta de ler, poder comentar um livro qualquer que já li quando se fala dele. Aquilo que, na minha opinião, NÃO VALE, é dizer que um livro é interessante ou deixa de o ser por causa do sabor que nos deixou a leitura da contracapa. Até pode estar incrivelmente bem escrita e fazer um apanhado do que se fala nas restantes páginas, mas não são bem a mesma coisa.
Concluo com uma pequena reflexão: não há nada de errado com saber pouco sobre o que se passa à nossa volta, ou não ter opinião sobre alguns temas ditos essenciais nos dias de hoje. É precisamente nesses campos que temos a oportunidade de aprender coisas novas. Agora, recorrer às três práticas que apresentei só para demonstrar um alegado conhecimento da realidade, "Não, obrigado!".

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Having an (own) opinion but no time to build it



There are people who neither have the patience to hear prof. Marcelo Rebelo de Sousa speak in the portuguese national TV, nor care much about attending to conferences about the characteristics of the portugese companies.

There are people who don’t like to read the news and who would never save some of their time to read a book about today’s world. Basically, not everyone likes having to do some work to form their own opinion on what’s going on all around. OK, no stress about that – everyone has their own tastes and informing oneself about actual events doesn’t have to be one of them. But then, what would John (generic character who never showed any type of interest for paintings) say to Mary (who loves painting and knows pretty much everything sbout it) when she asks for his opinion on a painting that both are seeing? An answer like “I like it very much, but can’t tell you much more about it” would suit him, given the circumstances. But instead, John, who had yesterday read a critics to that very painting, chose to make the critic author’s words his own. Smart guy, han? At this point we can reach a conclusion:

Having opinion on a subject matter is not at all like playing football! In football, you can’t really convince a whole stadium audience that you are a good player if you are not! In the world of opinions, things don’t work out that way. It’s possible that one goes around saying whatever he wants on a subject of which he knows little about, and yet cause others to think he knows much about it. It’s a technique, no doubt about that, which only a few can master. Do you wanna know how they do it? Here are three practices that, in my opinion, suit the people who are well trained at this art:
  • Memorize the pros’ opinions:

Such as I wrote last week, hearing the ones who truly understand a certain subject matter can be a really good way of building your own opinion. But on one condition: you’ll have to think by yourself about what the other person said, being this way able to add your personal touch to it – what you agree and disagree with. We don’t learn if we hear someone speaking, with the only purpose of taking sentences for ourselves to repeat. Macaws can do the same!...

... and they are not that smart

  • Read ONLY the news’ titles

This technique is particularly effective when you talk to someone who, as soon as they have something to fuss about, they will make extended monologues. John: “Yesterday I was reading about the Greek economy [didn’t go further than the title], and found some interesting facts. Did you know they had to ask for a financial rescue from ECB?” Mary: “That’s right! You know why, don’t you? It was obvious that after so much time doing…., they could only have ended up like this”.The problems will arise when John is asked to give a deeper opinion on what he “read”.

  • Read the back cover of interesting books

It feels good to me, and I believe this is a common feeling among those who like to read, being able to comment on some book that I have already read when it is mentioned in a conversation. But what, in my opinion, is pretty lame, is saying whether a certain book is interesting or not just because of what it looked like in the back cover. Even if it is extremely well written and makes up for a good summary of the remainder pages, it will not be the same thing as reading the whole book.


I’ll conclude with a little thought on this topic: there’s nothing wrong about knowing little of what is happening in the world, or not having your own opinion on a so called key subject for today’s conversations. It’s precisely in those areas where you have the opportunity to learn new things. Now, regarding the use of these three practices that I’ve presented in this post, with the purpose of depicting an alleged knowledge of reality, I say: “No, thank you!”

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International readers (if there's any): please give me feedbak if you are on that side :)
I would like to know if it's worth start writing the posts in English as well!




2 comentários:

  1. olá miguel,
    a que se deve o texto bilingue PT/EN?
    Concordo com o que dizes sobre a necessidade de ter opinião propria e do "trabalho" que isso acarreta. Devemos estar sempre prontos a aprender. Olha, já aprendi como se diz arara em EN: macaws?? Se tivesse lido isto numa contracapa de um livro, julgaria que te estavas a referir a macacos... ah,ah,ah....

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    1. Olá!
      Estou a fazer erasmus em Copenhaga durante este semestre, por isso tenho por aqui um grupo de pessoas que gostava que também lessem os meus posts. Daí o update :)

      PS: tive de recorrer ao tradutor do google para descobrir essa.

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